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Mulher Aprende A Ler Aos 79 Anos Para Escrever Para O Filho
Postado em 10 de Novembro de 2009 14h52
 

Uma simples carta mudou o destino de uma família de Araguari, no Alto Paranaíba de Minas Gerais. Nos tempos de e-mails e mensagens de celular, foi à moda antiga que a família do detento César Lopes Ribeiro, 51, soube depois de 22 anos onde ele estava.

 
"Aprendi a ler e a escrever para me corresponder com meu filho, depois que a primeira carta chegou", contou dona Maria Onofra Lopes, mãe de César. Ela e o filho perderam o contato em 1987, quando ele fugiu ao se envolver em um homicídio. Depois do ocorrido, César ficou até março desse ano sem qualquer contato com parentes.  

 
"Vi a carta, junto com contas a pagar, e nem dei bola. Como não sei ler, não tinha ideia do que se tratava. Um dos meus filhos me chamou e disse mãe, o que a deixaria mais feliz, ganhar na loteria ou ter notícias do César? Nessa hora eu até bambeei", contou dona Onofra, cheia de orgulho.
 
Ela se sentou com os quatro filhos, enquanto o mais velho lia a carta. Num pedaço de papel, uma assistente social do presídio José Maria Alkimim, em Ribeirão das Neves,  se apresentava e dizia procurar a família de um dos detentos. “Ficamos todos sem palavras. Depois desses anos todos, rezava e tinha fé de que reencontraria meu filho, mas quando aconteceu mesmo, fique até sem reação, de tão feliz".
 
Dona Onofra contou que nunca perdeu a esperança de abraçar César novamente. No dia seguinte, ela já tinha preparado tudo para ir ao presídio reencontrar o filho e procurado uma escola na cidade. "Voltei a estudar porque queria ler, sozinha, as palavras do meu filho, e ter certeza de que ele leria, lá longe, exatamente o que eu queria dizer". Questionada se foi difícil, aos 79 anos, aprender o alfabeto, ela disse não. " Difícil foi ficar esse tempo todo sem saber se César estava vivo, estava bem.O resto eu tirei de letra", conta a senhora, sem esconder a felicidade.


 E foi também por uma carta que César soube que a família estava bem e viria visitá-lo.


O REENCONTRO

A família de César chegou ao presídio e mudou a rotina do lugar. "Na penitenciária, os detentos recebem duas pessoas por visita. Como a história era realmente emocionante, abrimos exceção e César pode abraçar a mãe, irmãos e sobrinhos, de uma só vez. Era muita saudade guardada, e a família merecia isso," contou a assistente social do presídio, Claudirene Soares.

 
Conversaram, choraram e se abraçaram os familiares separados por tanto tempo. O reencontro emocionou não só os envolvidos, mas todos que estavam no presídio. E essa não foi a única vez que a família esteve reunida. Depois de receber a visita dos parentes, César foi a Araguari para rever amigos antigos e demais familiares, sendo recebido com festa. "Parecia uma pessoa famosa chegando, a casa ficou cheia o dia inteiro, todo mundo queria ver que César estava bem, estava conosco", contou dona Onofra.
 
A reunião ocorreu graças ao trabalho da assistente social da penitenciária. "Se não fosse por ela, nada disso teria acontecido. Ela teve paciência comigo, me respeitou, mas insistiu para que eu tentasse reencontrar minha família. Além da minha mãe e irmãos, ganhei também uma grande amiga", diz o detento. E Claudirene, há anos trabalhando com presos, contou que nenhuma historia a emocionou tanto. "Quando ouvi o César dizer que essas grades não o seguravam mais, que a felicidade era tamanha e superava a prisão, tudo valeu a pena.


VIDA FÁCIL

César morou no Paraná, trabalhando como operador de máquinas, e rodou cidades do interior de Minas Gerais exercendo a mesma profissão antes de ir para Belo Horizonte. "Ainda no Paraná, logo que fugi, encontrei com um caminhoneiro de Araguari. Perguntei se ele conhecia a família Lopes, para ter notícias de casa. Ele disse que sim, e que a família estava  de luto pois a mãe, dona Onofra, tinha morrido. Achei que tinha matado minha mãe de desgosto, fui embora e decidi que não procuraria meus irmãos nunca mais", contou o detento.


Ele viveu no Paraná, depois em cidades do interior de Minas e por fim Belo Horizonte, sempre carregando a culpa de ter 'matado' a mãe. O que César não sabia é que na cidade havia duas ‘Marias Onofras’. A que tinha morrido era uma conhecida da família, e não sua mãe.


 
Para ficar mais longe das lembranças do passado, César foi para BH.  "Dei de cara com a dura realidade das ruas de cidades grandes. Passei fome, frio e momentos de solidão. Se bem que sozinho eu estive desde que abandonei a minha família. Apesar dos amigos e namoradas que encontrei pelo caminho, meu coração era pesado e vazio, faltava o amor da minha mãe e dos meus irmãos",  disse emocionado.
 
César dormiu embaixo de viadutos, viveu de esmola e passou maus bocados, presenciando e sendo protagonista de cenas diárias de violência urbana. Ele viveu nas ruas até ser entregue à polícia por um conhecido, em 2002. "Nós ficamos próximos, achei que podia confiar nele e acabei contando a minha história. No dia seguinte, a polícia foi me buscar".


 E foi aí que a história de César começou a mudar. " Se eu tivesse ficado nas ruas até hoje nada disso teria acontecido, eu carregaria a culpa pela morte da minha mãe, e seria sozinho e amargo. Agradeço por ter sido preso, pagado pelos meus erros e tido a chance de recomeçar", conclui o detento.
 
RECOMEÇO
César deve sair da prisão até janeiro do ano que vem, e já tem planos para o futuro. "Tenho um dinheirinho guardado, e quero montar meu próprio negócio, uma boa padaria", disse. Desde que chegou á penitenciária, César aprendeu a profissão de padeiro, recebe salário e faz um dos pães mais gostosos do presídio.


Assim que sair, o detento pretende também morar com a namorada. Além da família, ele encontrou um amor de verdade, e de maneira inusitada. " Já estamos juntos há cinco anos, e tudo começou quando liguei para um programa noturno de rádio. A minha namorada, Eliane,é essencial para a minha felicidade. Vamos morar juntos quando eu ficar em liberdade", conta César entusiasmado.
 
Como a namorada mora em Belo Horizonte, César não vai voltar a viver com a família. " Mas ninguém precisa ficar triste por isso - diz o padeiro brincalhão- vou visitar minha mãe e irmãos sempre que puder". 
Fonte: O Tempo.
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